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Ródão: as pedras, as gentes e o Tejo

Dois documentários, um dos quais interactivo, mostram uma outra face da Beira Baixa. Uma viagem virtual à paisagem beirã com reencontro da memória oral de pescadores, agricultores ou contrabandistas

A pouco mais de duas horas de viagem de Lisboa, as Portas de Ródão são um deslumbramento para os sentidos. Uma vista arrebatadora que nada deve à Lagoa das Sete Cidades (na ilha açoriana de São Miguel), à Cruz Alta do Buçaco ou à Pedra Bela no Gerês.

Ao longo de milénios o Tejo escavou uma funda garganta através da serra das Talhadas, elevação que desenha no mapa, ao longo de 30 km, um traço de união entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo.

Tal como na Frecha da Misarela (Arouca) ou nas Fisgas do Ermelo (Mondim de Basto), a paciente acção de desgaste das águas foi erodindo as zonas menos duras da rocha, criando um desnível através do qual o rio se começou a despenhar. Com o tempo, o desnível aplainou e a cascata transformou-se numa estreita fenda da largura aproximada de um campo de futebol.

A submersão das gravuras do Tejo

O Tejo já não se precipita com furor pelo meio das penedias devido ao enchimento da albufeira do Fratel. Esta viria a submergir, em 1973, dois terços das gravuras rupestres descobertas no Alto Tejo pelos arqueólogos. Viviam-se os últimos tempos da ditadura e se, dois anos antes, o Estado Novo tinha afogado a aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas, no Gerês, menos se importaria com desenhos pré-históricos à beira-rio, confrontado que estava com as águas livres que se começavam a levantar.

Se o Tejo perdeu o dramatismo das invernias, ganhou a serenidade de um vasto espelho de água, sobrevoado pelo voo majestoso das grandes aves: grifos, águias e ocasionalmente a esquiva cegonha preta, tão indiferentes quanto possível às actividades humanas. Actividades estas que remontam à antiguidade clássica, pois, na margem esquerda, os montes de seixos do Conhal do Arneiro testemunham séculos de mineração romana do ouro. Do lado norte, quase à flor da água, avista-se um prodígio da engenharia oitocentista lusa, a plataforma da linha ferroviária da Beira Baixa.

Vista duma torre templária

Tudo isto se observa da margem direita, no miradouro sobranceiro às Portas perto do local onde, no século XII, os monges guerreiros templários ergueram uma torre de vigia e mais tarde foi construída a capela de Nossa Senhora do Castelo.

O local, a cinco minutos de carro da sede do concelho (e a três quartos de hora de marcha ao longo de uma rota pedestre devidamente assinalada), está limpo e cuidado, com acessos rodoviários e pedestres, placas de sinalização, bancos e painéis informativos, tudo da responsabilidade do município de Vila Velha de Ródão.

Contudo, no sábado de meio de Outubro em que aqui estive, nem um visitante. Àquela hora da manhã seguramente que os turistas se acotovelam no lisboeta Eléctrico 28 ou no portuense Cais da Ribeira. É forçoso constatar que a chegada e permanência de visitantes estrangeiros em Portugal é como a riqueza gerada pela globalização: impressionante mas francamente mal distribuída.

Por fim, lá apareceu um ciclista no miradouro, enquanto em baixo passava o barco que faz cruzeiros fluviais com partida do cais de Vila Velha de Ródão.

Dito isto, caro leitor, meta pés ao caminho e venha até aqui. Se é frequentador habitual das minhas crónicas, já sabe que há alternativas para pagar menos portagens, designadamente nos pórticos electrónicos da A23. E nem é forçoso vir de carro. Há caminho-de-ferro até aqui: sete comboios diários com partida de Santa Apolónia (transbordo no Entroncamento para quem venha de Norte), dos quais três rápidos, levando à volta de duas horas e meia.

O trajecto entre os arredores do Entroncamento e Vila Velha é dos mais bonitos que (ainda) se podem fazer na ferrovia lusa. Sempre pela beira-Tejo, permitindo apreciar os castelos de Almourol e Belver, as barragens de Belver e Fratel, o casario de Constância ou Abrantes.

Se estiver frio ou chover, ou se quiser preparar a viagem de uma forma tão meticulosa como Serpa Pinto planificou a travessia de Angola à contra-costa tem, a partir de agora, uma dupla ferramenta ao seu dispor: um documentário interactivo sobre o concelho de Vila Velha de Ródão já disponível na Internet e um documentário propriamente dito que em breve passará na RTP. Ambos foram apresentados publicamente na Casa de Artes e Culturas do Tejo em Vila Velha de Ródão na passada sexta-feira 18 de Outubro.

O mapa interactivo que funciona como fio condutor do documentário interactivo Rodom

O mapa interactivo que funciona como fio condutor do documentário interactivo Rodom

Rodom.pt é um webdoc realizado por Patrícia Gomes e produzido pela Ocidental Filmes com o apoio financeiro do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) e da Câmara Municipal de Vila Velha de Rodão. É um trabalho meticuloso, cheio de informação e de extrema utilidade, o que não é inimigo da beleza visual. Apresenta-se sob a forma de um mapa digital do concelho. Carregando nos pontos assinalados, abrem-se portas para as maravilhas naturais, as tradições, a história ou a arqueologia. Cada uma destas narrativas desdobra-se em várias outras, à maneira das bonecas russas, com recurso a vídeos, fotografias antigas, textos ou animação.

Animação ilustrativa da formação das Portas de Ródão

Houve uma fortíssima aposta na recolha da memória oral do concelho e assim encontramos pescadores a contar como se habituaram a conhecer cada pedra do Tejo ou contrabandistas a evocar longas noites passadas a jogar ao gato e ao rato com a Guarda Fiscal ou a Guardia Civil.

Num tempo em que tudo parece efémero e a tendência dominante apenas valoriza o imediato e o superficial, eis um trabalho exemplar que vos convido a descobrir.

A memória oral beirã gravada em vídeo

Tal como no que respeita ao documentário de que em seguida vos falarei a alma destes projectos é o cineasta Luis Correia daqui natural e que ao fim de umas décadas resolveu regressar, apaixonando-se por uma quinta com fontes, árvores de fruta e sólidos edifícios de pedra, cujos antigos proprietários tiveram a cortesia de lhe deixar preciosidades como um piano vertical, pipos de vinho ou arcas cheias de livros e revistas antigos.

Luis Correia pretende estabelecer aqui um pólo de produção audiovisual que invista na divulgação de ciência e património natural e explore novas tecnologias e técnicas narrativas, incluindo o cinema de animação.

Artigo tirado do Expresso:

https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2019-10-24-Rodao-as-pedras-as-gentes-e-o-Tejo?fbclid=IwAR04Gzz81S_5RH3r51RwOO_QedLZ_FR2blVN4r1zWMUuvl9CFPY9AvDk-Jo